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O Flúor Pode Estar Prejudicando Sua Tireoide? O Que a Ciência Realmente Mostra

Por Dr. André | Médico com abordagem funcional integrativa


Quando falamos em Hashimoto e hipotireoidismo, a maioria das pessoas pensa imediatamente em hormônios tireoidianos, genética ou autoimunidade.


Mas a ciência moderna tem mostrado que diversos fatores ambientais também podem influenciar a saúde da tireoide. Entre eles está uma substância presente diariamente na vida de milhões de pessoas: o flúor.


O flúor é amplamente utilizado na prevenção de cáries e está presente na água tratada, cremes dentais, enxaguantes bucais e diversos alimentos industrializados.


Mas será que ele pode interferir na função da tireoide?


A resposta é mais complexa do que um simples sim ou não.


A RELAÇÃO ENTRE FLÚOR E IODO


Para entender essa discussão, precisamos compreender a importância do iodo.


O iodo é um mineral essencial para a produção dos hormônios T4 (tiroxina) e T3 (triiodotironina). Sem iodo adequado, a tireoide não consegue fabricar seus hormônios de forma eficiente.


O flúor pertence ao mesmo grupo químico do iodo na tabela periódica: os chamados halogênios.


Há décadas pesquisadores investigam se exposições elevadas ao flúor poderiam interferir em mecanismos relacionados à captação e utilização do iodo pela glândula tireoide.


Estudos experimentais sugerem que o flúor pode afetar o transportador sódio-iodo (NIS), proteína responsável pela entrada do iodo nas células tireoidianas.


A literatura também descreve possíveis efeitos sobre:


• Captação de iodo

• Síntese hormonal

• Conversão hormonal

• Estresse oxidativo celular

• Regulação genética da função tireoidiana


Isso não significa que qualquer contato com flúor cause hipotireoidismo. Significa que, em determinadas condições, a carga total de exposição pode se tornar clinicamente relevante.


O QUE MOSTRAM OS PRINCIPAIS ESTUDOS?


ESTUDO 1: A MAIOR METANÁLISE PUBLICADA ATÉ O MOMENTO


Em 2024, Iamandii e colaboradores publicaram uma revisão sistemática com metanálise dose-resposta avaliando estudos sobre populações expostas a diferentes níveis de flúor.


Método:

• Revisão sistemática e metanálise dose-resposta

• 24 estudos com dados de função tireoidiana

• Avaliação de populações expostas a diferentes concentrações de flúor na água


Resultado:

Os autores observaram associação entre níveis mais elevados de exposição ao flúor e aumento dos níveis de TSH.


Os resultados sugeriram que os efeitos se tornavam mais evidentes quando a concentração de flúor na água ultrapassava aproximadamente 2 a 2,5 mg/L.


Crianças pareceram apresentar maior sensibilidade aos efeitos tireoidianos.


Conclusão:

A revisão concluiu que exposições elevadas ao flúor podem estar associadas a alterações da função tireoidiana, embora a magnitude do efeito varie entre as populações estudadas.


ESTUDO 2: REVISÃO SISTEMÁTICA PUBLICADA NO PLOS ONE


Em 2024, Ferreira e colaboradores realizaram uma revisão sistemática especificamente focada na relação entre exposição ao flúor e alterações tireoidianas.


Método:

• Busca em múltiplas bases científicas internacionais

• 3.568 artigos inicialmente identificados

• 7 estudos preencheram todos os critérios metodológicos


Resultado:

Cinco dos sete estudos analisados encontraram associação entre exposição elevada ao flúor e alterações da função tireoidiana.


Conclusão:

Os autores concluíram que existe uma possível associação entre exposição crônica elevada ao flúor e alterações da tireoide.


Entretanto, classificaram a qualidade global das evidências como baixa, ressaltando a necessidade de estudos prospectivos mais robustos.


ESTUDO 3: O IMPORTANTE ESTUDO CANADENSE


Um dos estudos mais citados pelos defensores da fluoretação da água foi publicado no Canadá em 2017 por Barberio e colaboradores.


Método:

• Mais de 6.000 participantes

• Avaliação de TSH e T4 livre

• Medição de flúor urinário

• Avaliação da concentração de flúor na água consumida


Resultado:

Os autores não encontraram associação significativa entre exposição ao flúor e alterações da função tireoidiana na população estudada.


Por que esse estudo merece uma análise cuidadosa?


Apesar da excelente qualidade metodológica, algumas limitações precisam ser consideradas.


Primeiro: a população canadense apresenta níveis de exposição relativamente baixos quando comparada a diversas regiões da China e da Índia, onde muitos dos estudos positivos foram realizados.


Segundo: o estudo utilizou amostras urinárias pontuais. Esse tipo de exame reflete principalmente a exposição recente ao flúor, mas pode não representar adequadamente a carga acumulada ao longo de décadas.


Terceiro: o estudo não avaliou marcadores de autoimunidade tireoidiana, como anti-TPO e anti-tireoglobulina.


Portanto, ele não responde diretamente à pergunta que mais interessa aos pacientes com Hashimoto:


Indivíduos com autoimunidade tireoidiana podem ser mais sensíveis aos efeitos do flúor?


A resposta permanece desconhecida.


O PAPEL DA DEFICIÊNCIA DE IODO


Estudos mais recentes sugerem que a interação entre flúor e tireoide pode depender do estado nutricional do indivíduo.


Pessoas com menor disponibilidade de iodo parecem apresentar maior suscetibilidade aos possíveis efeitos tireoidianos do flúor.


Isso faz sentido biologicamente.


Se um paciente apresenta:


• Deficiência de iodo

• Deficiência de selênio

• Tireoidite de Hashimoto

• Inflamação crônica

• Estresse oxidativo aumentado


qualquer fator que reduza ainda mais a eficiência da utilização do iodo pode potencialmente ter maior impacto clínico.


ONDE ENCONTRAMOS FLÚOR NO DIA A DIA?


Muitas pessoas acreditam que a principal fonte seja a pasta de dente.


Na realidade, a exposição costuma ser cumulativa.


As principais fontes incluem:


Água fluoretada:

Principal fonte para grande parte da população.


Cremes dentais:

Especialmente quando ocorre ingestão frequente.


Enxaguantes bucais:

Podem contribuir para a carga total de exposição.


Chá preto e chá verde:

Entre os alimentos naturalmente mais ricos em flúor.


Refrigerantes e bebidas industrializadas:

Dependendo da água utilizada durante a fabricação.


Alimentos processados:

Principalmente aqueles produzidos com água fluoretada.


Peixes consumidos com espinhas:

Como sardinhas e anchovas.


ENTÃO DEVEMOS EVITAR COMPLETAMENTE O FLÚOR?


Não necessariamente.


O flúor possui benefícios bem documentados na prevenção da cárie dentária.


Por outro lado, a literatura científica atual sugere que exposições elevadas e prolongadas podem influenciar a fisiologia tireoidiana em determinadas populações.


A questão central talvez não seja a pasta de dente isoladamente.


O que a ciência vem investigando é a carga total de exposição ao flúor ao longo da vida e como ela pode interagir com deficiência de iodo, predisposição genética, inflamação crônica e doenças autoimunes.


O QUE ISSO SIGNIFICA PARA QUEM TEM HASHIMOTO?


Pacientes com Hashimoto frequentemente focam apenas na reposição hormonal.


Entretanto, a experiência clínica e a literatura científica mostram que diversos fatores ambientais podem influenciar o comportamento da doença.


Entre eles:


• Alimentação

• Saúde intestinal

• Vitamina D

• Selênio

• Ferro

• Metais tóxicos

• Sono

• Estresse

• Exposição a contaminantes ambientais


O flúor pode representar mais uma peça desse quebra-cabeça.


Não necessariamente a causa da doença, mas um possível fator modulador em indivíduos suscetíveis.


COMO AVALIAR ISSO NA PRÁTICA


Na abordagem funcional integrativa, o objetivo não é criar medo em torno de uma única substância. O objetivo é avaliar o paciente de forma ampla.


Em uma investigação mais completa, podemos considerar:


• Histórico de exposição ambiental

• Qualidade da água consumida

• Sintomas persistentes apesar do TSH “normal”

• Presença de Hashimoto e anticorpos elevados

• Estado nutricional de iodo, selênio, zinco, ferro e vitamina D

• Marcadores de inflamação, intestino e estresse oxidativo


Cada caso precisa ser interpretado individualmente. O que é irrelevante para uma pessoa pode ser importante para outra, dependendo do terreno biológico.


A CIÊNCIA ATUAL PEDE EQUILÍBRIO, NÃO EXTREMISMO


A ciência atual não permite afirmar que a pasta de dente causa Hashimoto ou hipotireoidismo.


Por outro lado, também não permite afirmar que o flúor seja completamente irrelevante para a saúde tireoidiana.


As melhores evidências disponíveis sugerem que exposições elevadas ao flúor podem influenciar parâmetros da função tireoidiana, especialmente em indivíduos suscetíveis e em populações com deficiência de iodo.


Para pacientes com Hashimoto, a mensagem mais importante é compreender que a saúde da tireoide depende da interação entre genética, imunidade, nutrição e ambiente.


E é justamente nessa interação que a medicina integrativa busca atuar.


Na Clínica Dr. André Azevedo, em Campinas/SP, avaliamos Hashimoto e hipotireoidismo de forma ampla, considerando exames, sintomas, histórico clínico, nutrição, intestino, inflamação e exposições ambientais.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS


• Iamandii I. et al. Does fluoride exposure affect thyroid function? A systematic review and dose-response meta-analysis. Environmental Research, 2024.

• Ferreira M.K.M. et al. Is there any association between fluoride exposure and thyroid function modulation? A systematic review. PLOS One, 2024.

• Barberio A.M. et al. Fluoride exposure and indicators of thyroid functioning in the Canadian population: implications for community water fluoridation. Journal of Epidemiology and Community Health, 2017.

• Malin A.J. et al. Fluoride exposure and thyroid function among adults living in Canada: effect modification by iodine status. Environment International, 2018.


Dr. André — Médico com abordagem funcional integrativa. 25 anos de experiência no cuidado de pacientes com Hashimoto e hipotireoidismo. Campinas/SP.

 
 
 

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